Capítulo 1 – Bota de Cão!
– Doação! Doação! –
Os usuários de droga começaram a gritar quando viram um carro parar na ponte e abrir o porta-malas.
– Vai lá, Pedro, é doação, vê se consegue trazer pra mim também… – pediu-me minha amiga FARELANDA.
Levantei-me, deixei meu kit todo ao lado da minha amiga, na calçada, e fui buscar duas marmitas; geralmente eles dão garrafinhas de água também. Estávamos somente eu e ela onde a gente tava fumando, então deu pra deixar meu cachimbo, isqueiro, maço de cigarro e a pedra sem me preocupar de ser roubado por outros noias.
Era sopa, servida em marmitinhas brancas, com garfo colado com fita durex e um panfletinho escrito à mão: Jesus te Ama.
Consegui pegar duas e uma água, a última garrafinha de 500 ml que o irmão tinha.
A sopa estava quente, muito quente, do tipo pelando, uma delícia, e tinha muitos legumes, bem cortadinhos, com cubinhos de frango, tudo muito bem temperado, feito com amor.
Dei graças a Deus, esperei minha amiga terminar de dar uma bola e soltar a fumaça.
Agradecemos pelo alimento e brocamos tudo! Só a broca, depois de dias sem comer, só fazendo corre e fumaça… no máximo um chips de R$ 1,00 ou pão mangueado na porta da padaria e o copão de GuaraVita que não pode faltar pra quem sabe ler um pingo é letra. Lumíiiiiiiiiiiiinio, demônio!
– Nossa, que delícia – disse minha amiga. – Ai, eu comeria mais.
Aí, nisso que estamos comendo, chega outro nóia e, vendo que haviam outros grupos e duplas comendo espalhados pela cracolândia, ao me ver, já que me conhece, perguntou o que ele mesmo já sabia:
– Passou doação por aqui? – perguntou-me RURRU DE BOMBRIL. Lógico, claro, só os irmão vem alimentar nóis aqui no inferno.
– Passou na ponte – respondi.
– Come um pouco aqui comigo – disse Farelanda pra Rurru.
– Tá paz, tá paz, mas água eu aceito.
– Não… pode comer, eu não vou aguentar comer tudo.
– Uai, você disse que comeria outra – argumentei.
– Comeria, se eu não tivesse cheia de fumaça na cabeça. Toma, Rurru, come um pouco.
– Demorô, família, Deus abençoe – Rurru nos agradeceu e pegou a marmitinha de sopa das mãos de Farelanda e, antes mesmo de começar a comer, já lançou: – E depois que eu comer me empresta um puxe aí até meu corre chegar? Mandei um bichinho ali virar um projeto pra mim.
– Tá bom, Rurru. Tá paz, se alimenta aí – eu falei, já terminando de jogar o caldo da sopa pra dentro e isolando a embalagem no valão. Então comecei a procurar minhas coisas e me preparar pra sequência de bluetufada. Só fumaça. Aí eu falei assim:
– Farelanda, toma um cigarro: acende e faz cinza que agora eu vou botar uma bola de 90 pra bater e eu ver a bruxa e sair correndo. Bota de cão, demôoooooooooooonio.
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Pseudônimo: @PedrimPescador
LIVRO - OPERAÇÃO RESGATE (PPES_05)
Capítulo 01 - Bota de Cão.
https://livro-resgate.blogspot.com/2026/01/ppes-operacao-resgate-capitulo-02-mao-na-cabeca-reflexao-sobre-danos-prejuizos-crack-vila-velha-es-usuarios-cracolandia.html?m=1
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