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ENTREVERSOS_CAP_01: Bota de Cão: A Economia do Afeto e a Sobrevivência no Fluxo

 


# OPERAÇÃO RESGATE: Bota de Cão: A Economia do Afeto e a Sobrevivência no Fluxo

"A sopa estava quente, muito quente, do tipo pelando, uma delícia, e tinha muitos legumes, bem cortadinhos, com cubinhos de frango, tudo muito bem temperado, feito com amor." (Operação Resgate, p. 5).

O Brasil enfrenta hoje um dos seus desafios mais complexos no campo da saúde pública e da segurança social: a epidemia do crack. O fenômeno não é apenas uma questão de dependência química, mas uma crise humanitária que escancara as vísceras da exclusão urbana. Nas últimas décadas, o Estado e a sociedade civil têm oscilado entre o assistencialismo e a repressão, muitas vezes ignorando a subjetividade de quem habita os territórios de uso. É nesse cenário de invisibilidade que a obra "Operação Resgate" se torna um documento fundamental. Escrito por Pedrim Henrique, o "Pedrim Pescador", o livro é o resultado de anos de uma luta dupla: a sobrevivência diária sob o domínio da droga e o esforço hercúleo para vencer o vício. Diferente de tratados acadêmicos distantes, esta narrativa nasce do asfalto, trazendo a autoridade de quem não apenas observou, mas sentiu na pele as engrenagens da "máquina de moer gente" que é a cracolândia.

No primeiro capítulo, intitulado "Bota de Cão", Pedrim nos conduz pela mão até o limiar de uma ponte onde o som de um motor de carro pode significar a diferença entre o desespero e o alento. O episódio da doação de uma sopa quente serve de âncora para compreendermos a profundidade do projeto. A partir dessa vivência, é possível aprofundar a discussão em três eixos centrais que fundamentam a urgência de uma nova abordagem para o problema das drogas no Brasil.

A Gestão do Afeto como Tecnologia Social

O relato de Pedrim sobre a sopa "feita com amor" e o panfleto manuscrito revela que, para o usuário em situação de rua, o cuidado é uma forma de resistência política. Mais do que nutrir o organismo, o alimento temperado com atenção rompe o que o sociólogo Erving Goffman chamaria de "mortificação do eu", processo onde o indivíduo perde sua identidade ao ser tratado como um objeto ou um estigma ambulante. Quando Pedrim descreve os legumes bem cortadinhos, ele está apontando para uma falha nas políticas públicas padronizadas: muitas vezes o Estado oferece o alimento, mas nega a dignidade.

Essa percepção encontra eco nas diretrizes do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), que enfatiza que o tratamento eficaz da dependência química deve ser pautado no respeito aos direitos humanos e na construção de vínculos de confiança. O afeto, portanto, não é um acessório romântico, mas uma ferramenta técnica de aproximação. Sem o estabelecimento dessa ponte emocional, qualquer tentativa de resgate esbarra na barreira da desconfiança de quem foi abandonado por todas as outras instituições. O capítulo mostra que o amor contido na entrega de uma marmita é, muitas vezes, o único elo que ainda mantém o usuário conectado à ideia de humanidade.

A Economia Moral e a Solidariedade na Escassez

Um ponto que merece profunda reflexão é a dinâmica de partilha entre Pedrim, Farelanda e Rurru de Bombril. O texto evidencia que a rua possui uma ética própria, onde a sobrevivência é coletiva. Quando Pedrim busca as marmitas, ele não pensa apenas em si; ele exerce um papel de mediador e cuidador. Essa rede de apoio mútuo desafia a visão simplista de que o usuário de crack é um ser puramente egoísta movido pelo prazer imediato. Ele está, na verdade, inserido em uma "economia moral da rua", onde a reciprocidade é a moeda mais valiosa para quem não possui nada.

A urgência de entender essa dinâmica é reforçada por relatórios do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), que frequentemente alertam para a necessidade de políticas que respeitem as redes de sociabilidade já existentes nos territórios de uso. Tentar "resgatar" alguém isolando-o de seus pares sem compreender esses laços de lealdade pode ser contraproducente. Pedrim mostra que a solidariedade é o que mantém esses indivíduos vivos no "inferno". Reconhecer que existe uma estrutura social organizada, ainda que precária, é o primeiro passo para que assistentes sociais e psicólogos consigam desenhar estratégias de intervenção que façam sentido para quem está no fluxo.

O Conflito entre a Necessidade Biológica e a Fissura Espiritual

O encerramento do capítulo com a expressão "bota de cão" e a preparação para "ver a bruxa" estabelece o paradoxo central da dependência: o corpo que acaba de ser nutrido pela sopa é o mesmo que exige a autodestruição pela pedra. Pedrim não mascara a realidade; ele expõe que a comida é o intervalo necessário para que a busca pela droga recomece. Essa dualidade é mais do que uma questão química; é uma manifestação do que o pensador Achille Mbembe define como "necropolítica", onde certas populações são deixadas à margem, em um estado de "morte em vida".

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a dependência como uma doença crônica e recorrente, mas o relato de Pedrim adiciona uma camada de urgência espiritual e existencial a essa definição. O uso do termo "demônio" para descrever a droga indica que o combate ao crack exige uma abordagem multidisciplinar que vá além da desintoxicação física. É preciso uma reprogramação que ofereça um novo sentido de vida que seja mais potente do que o efeito da substância. O projeto "Operação Resgate" fundamenta-se exatamente nessa necessidade: a de oferecer uma base multimídia que fale a língua de quem está lá embaixo, reconhecendo a dor do "bota de cão", mas apontando para a possibilidade real de uma nova travessia...