"Quanto Vale?" — A Pergunta que Rasga o Vazio: Existencialismo na Sarjeta
Há uma pergunta que atravessa o quarto capítulo de "Operação Resgate" como uma faca cega cortando carne: "Quanto vale?". Pedrim Pescador não a formula como questão retórica ou exercício filosófico de salão. Ele a lança do fundo do abismo onde valor foi a primeira coisa a se perder. Entre a descrição de pães de queijo a R$1,00 e citações do profeta Isaías, entre cenas de café da tarde simples e a constatação de que "tem coisas que o PIX não paga", desenvolve-se uma das mais pungentes meditações existenciais já escritas sobre o valor da vida quando tudo parece tê-lo perdido. Não se trata de filosofia acadêmica — é filosofia de trincheira, escrita com as unhas sujas de quem sobreviveu ao inferno do crack e ainda ousa perguntar pelo sentido.
A cena inicial é aparentemente banal: "Em Itapoã, Vila Velha/ES, tem um Posto de Gasolina que vende Pão de Queijo a R$ 1,00." Mas nesta simplicidade reside o primeiro movimento filosófico. Pedrim descreve com quase devoção sensorial: "é toda hora saindo fornada nova", "nunca comi um pão de queijo borrachudo lá". O detalhe importa. Num mundo onde o crack reduz tudo à necessidade química imediata, o pão de queijo quente, barato, consistentemente bom, torna-se epifania do valor ordinário. É a descoberta de que valor não está apenas nas grandes coisas, mas na textura certa da massa, no queijo que não borracha, no preço acessível que permite compartilhar. Pedrim, sem citar Heidegger, pratica sua fenomenologia do cotidiano: descreve o mundo como ele aparece à consciência que ainda não foi totalmente sequestrada pelo vício.
Mas é no contraste que a pergunta ganha densidade existencial. "Pegar R$ 20,00 Conto, comprar um refrigerante do Guaraná Coroa, o Melhor do Brasil, e comprar um Chipão da GulaChips... sentando numa sombra na praia, confraterniza do momento fora de drogadição". Esta cena — R$20 em prazer simples, compartilhado, sem drogas — é colocada lado a lado com os mesmos R$20 transformados em crack, que "acaba em 2 horas". O que Pedrim estabelece aqui é uma economia existencial do tempo e do prazer. De um lado, prazer efêmero, solitário, autodestrutivo, medido em minutos. De outro, prazer duradouro, relacional, construtivo, que vira memória. A pergunta "Quanto vale?" deixa de ser sobre preço e torna-se sobre qualidade da existência.
Quando Pedrim avança para "tem coisas que nem Mastercard compra. Tem coisas que o PIX não paga: como rever sua mãe, seus filhos... passar o Natal em família...", ele toca no cerne da crise existencial moderna. Vivemos numa sociedade que monetizou quase todas as experiências, mas justamente as mais significativas — as relações, os reencontros, os ritos familiares — permanecem fora do mercado. O crack é a versão mais extrema desta lógica: ele não apenas monetiza, mas destroi justamente essas relações que dão sentido. O usuário vende tudo — "relógio, tênis, calça, camisa, bolsa, blusa, carro, moto, apartamento, lotes, propriedades, tudo, tudo, tudo, tudo, TUDO!" — para comprar momentos de anestesia existencial. É a antítese do valor: trocar tudo por nada.
A entrada do texto de Isaías 40 neste contexto é genial. "Toda carne é erva e toda a sua beleza como a flor do campo. Seca-se a erva, e cai a flor... porém a palavra de nosso Deus subsiste eternamente." Pedrim interpreta inicialmente de forma desesperançada: "não vale a pena clamar, pois a vida é passageira. Não vale a pena viver: porque por mais flores e frutos que você dê, ao morrer você não vai desfrutar de nada disso." Esta é a visão niilista em sua forma mais crua: se tudo é efêmero, se somos erva que seca, flor que cai, então nada tem valor permanente, nada importa realmente. É a justificativa existencial para o vício: se nada vale a longo prazo, pelo menos o crack vale a curto prazo.
Mas então acontece a virada hermenêutica, que é também virada existencial. Pedrim reconsidera: "ainda que um diga que não vale a pena viver, o primeiro diz: Clama!" Aqui ele encontra no texto bíblico aquilo que Albert Camus buscava em "O Mito de Sísifo": como viver — e viver com significado — num universo indiferente ou mesmo absurdo. Para Camus, Sísifo, condenado a rolar uma pedra montanha acima eternamente apenas para vê-la cair novamente, encontra liberdade e rebeldia exatamente na consciência de seu absurdo. Da mesma forma, Pedrim sugere que mesmo se a vida é "erva que seca", o ato de clamar, de buscar, de perguntar "quanto vale?", é em si mesmo ato de rebeldia contra o niilismo.
Kierkegaard, o pai do existencialismo, escreveu extensamente sobre o "desespero" como condição humana fundamental. Para ele, o desespero não era patologia, mas oportunidade — é no fundo do desespero que podemos escolher nos relacionar autenticamente com o infinito. Quando Pedrim escreve "ainda que você diga que a sua vida não tem valor... que você não merece nada... ainda que você se enxergue como essa erva daninha que só serve para dar espinhos...", ele está descrevendo o que Kierkegaard chamaria de "desespero de não querer ser si mesmo". O usuário de crack não apenas sofre — ele desespera de si mesmo, rejeita sua própria existência. A resposta que Pedrim encontra em Isaías — "Consolai, consolai o meu povo... já a sua milícia é acabada, que a sua iniquidade está expiada" — é oferta de reconciliação existencial: você pode voltar a ser si mesmo, sua luta terminou, seu erro foi perdoado.
Jean-Paul Sartre, com sua famosa afirmação "a existência precede a essência", insistiu que não nascemos com valor pré-determinado — criamos valor através de nossas escolhas. O problema do usuário de crack, sob esta perspectiva, é que suas escolhas foram sequestradas pela dependência química. Ele não escolhe mais — reage. A pergunta "Quanto vale?", portanto, não é apenas questão teórica. É tentativa de reconquistar a agência existencial. Quando Pedrim contrasta o valor de um pão de queijo compartilhado com o valor evaporado do crack, ele está tentando reinserir a possibilidade de escolha autêntica: você pode escolher o que realmente vale.
O momento mais profundamente existencial do capítulo talvez seja quando Pedrim, após descrever as coisas que o dinheiro não compra, pergunta diretamente ao leitor: "E aí eu te pergunto: Quanto vale? Quanto vale?" Esta interpelação não é retórica. É chamado à responsabilidade existencial. Como escreveu Sartre, "o homem está condenado a ser livre" — condenado a escolher seus valores, a criar seu significado. Pedrim força o leitor — seja ele usuário em recuperação, familiar desesperado, ou simples curioso — a confrontar suas próprias hierarquias de valor. O que realmente importa? O que vale o sacrifício? O que vale a pena preservar, mesmo ao custo de grande sofrimento?
A conclusão — "A TUA VIDA VALE MAIS QUE O MUNDO INTEIRO!" — poderia soar como exagero piegas em outro contexto. Aqui, vem como golpe existencial necessário. Depois de mostrar como o crack reduz o valor da vida a zero, depois de revelar como a sociedade muitas vezes trata o "nóia" como descarte humano, depois de explorar a fragilidade existencial ("erva que seca"), Pedrim precisa afirmar o valor absoluto como antídoto ao niilismo. É afirmação que ecoa Kant e seu imperativo categórico — trate cada pessoa como fim em si mesma, nunca apenas como meio — mas vinda não da razão pura, mas da sarjeta.
No final, o capítulo "Quanto Vale? - Isaías 40" realiza algo raro: transforma a experiência limite do vício em laboratório existencial. Nas condições mais extremas de desvalorização — social, econômica, física, moral — a pergunta pelo valor ressurge com força redobrada. Porque é justamente quando tudo parece ter perdido valor que a questão "o que vale?" se torna mais urgente, mais visceral, mais verdadeira.
Pedrim nos mostra que o existencialismo não é filosofia de privilegiados que ponderam o significado da vida em cafés confortáveis. É ferramenta de sobrevivência para quem está perdendo a vida. E a resposta que ele elabora — através do pão de queijo quente, do café compartilhado, do texto antigo relido, da pergunta repetida — é que o valor não é dado, mas construído. Não é encontrado, mas criado. E pode ser criado mesmo nas condições mais adversas, a partir dos materiais mais simples: uma fornada constante de pães de R$1, a memória de um Natal em família, a coragem de clamar mesmo quando tudo diz que não vale a pena.
Nessa coragem de perguntar "quanto vale?" quando tudo parece não valer nada, reside talvez a mais autêntica liberdade humana. E nessa liberdade, por mais frágil que seja, começa todo resgate.
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Referências Filosóficas:
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2018.
KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1973.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1988.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Lisboa: Edições 70, 2007.
Referência Primária:
LELLIS, Pedro Henrique Serrano. Operação Resgate. 2025. Capítulo 4: "Quanto Vale? - Isaías 40".



